”Quando se fala uma língua,
sabe-se muita coisa que jamais se aprendeu”.
Chomsky
in A angústia da influência, Harold Bloom
Mentir, às vezes, é um exercício angustiante. Posso dizer que há muito tempo eu não me sentia exasperada em meu habitual dissimular. E não sentia vontades irreprimíveis de ultrajar meus amores e macular seus amares perfeitos.
E ferir-lhes a fronte, rasgando-lhes a face. A carne. O importante era lancinar-lhes os músculos, corromper-lhes as vísceras, furar-lhes os olhos.
Os olhos. Os ouvidos. As mãos. O olfato. Queria que lhes faltassem os sentidos para que não pudessem saber-me, notar-me, sentir-me.
Eu e minhas verdades somos egoístas. E pertencemos umas às outras.
Enquanto eu gargalhava em silêncio a consciência de ser profana, entretanto, quem foi destituída dos sentidos fui eu.
Aquela que tanto procrastinou o desejo de fazer-se serva e tanto imaculou a vontade de ser só. Aquela que mentiu que calava, falou que mentia e calava que sua única verdade era fingir a mentira para realmente encarar aquilo que lhe afligia.
Tinha medo de ser só.
E quando novamente o ar irrompeu as perturbações insensatas da estupidez, o medo extirpiu-se de todo. Era a calma das águas silentes e a certeza das crianças quanto à duração da eternidade. Eu não sabia não mentir, mas o não saber foi tão profícuo que qualquer certeza (ou mentira) tornara-se obsoleta.
Eu notei que era fluente em uma língua da qual eu nem sabia a existência. O sucumbir às vontades eternas.
” (…) eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro”.
Clarice Lispector
*Miojo serve*
Oi oi
Parabens pelo texto.. Mto bom (novamente, diga-se).
Nao tenho muito o que comentar flor.. Só que esta muito bom mesmo!!
Estou com saudades de ti..
beijos beijos
Apesar de ser amante de uma boa conversa, regada a gestos, heresias gramaticais sem importância, gargalhadas e palavras ditas em silêncio, não há como negar a singularidade do efeito de um texto bem escrito sobre a alma do leitor.
Suas palavras caem umas sobre as outras em fluidez de cascata. Impossíveis de serem contidas enquanto não chegam ao fim. E eu me afogo, por opção.
O mais estranho é que, mesmo já sabendo tudo o que elas diziam antes de chegar a lê-las, elas soam familiarmente inéditas – o que é um elogio.
Adoro o seu novo estar, que na verdade sempre aí esteve, embora antes adormecido (ou talvez suprimido coubesse melhor). Porque nele eu refugio o meu próprio estar, sem graça há tanto tempo que se confunde com felicidade.
Mas eu sou feliz para você.
Te adoro. =]
E s t o u ne s t e m om e n t o t e n d o e s pa s m o s d e s o l id o s co n e h c i me n t o s c u l t ur ai s se n d o a s s i mi l a do s …. hehe..
Ju magaivel, vc escreve muito bem…
Showww….
Fala a verdade, vc tava elokicida a hora que escreveu esse texto hehe, brincadeira..
Bjos
Até
Juzita, com certeza esse sentimento é algo estranho. Jamais queremos assumir que sucumbimos a vontades eternas e que falamos “linguas” que não são de nossa constante utilização.
Sentir algo maior do que nós e não poder alcançar nos deixa frustrados, mas muitas vezes é melhor para o futuro. Mesmo que esse seja pior que o agora.
Sejamos honestos, o mundo não gira em nossas mãos e muitas vezes as nossas vontades são destiladas pelo senso de não nos machucar e não machucar os outros. Digo que ceder, muitas vezes, nos é menos dolorido do que acreditar que nossas vontades serão recompensadas. Já que mesmo procurando defeitos para desistir as nossas vontades são mais fortes que a sanidade. Seria bom se a lingua pudesse ser usada somente para coisas boas.
Se cuida.
“Um orador
limitado
à um idioma morto” (Ludovic)
“Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem (…)tenham mãos, não me toquem (…) tenham olhos e não me vejam” (Jorge Ben)