We can (not) pretend it all the time

Porque foi um tempo de tanto olhar e silêncio que no momento de falar meu suposto saber metafórico calou-se. E porque tanto foi dito sem que a força do verbo fosse feita marca que nada mais puro de meu lirismo senão o calar.

A detentora de tantos vocábulos e de tantas formas de explicar, a menina com um dicionário e com um livro a publicar, aquela que sempre tem uma resposta a pulsar. Justamente eu que abuso das rimas, que escrevo demais, que custo a parar de falar.

Porque se emudeço não é que me faltem palavras. É que me sobra o olhar.

(Por que tanto olhar?)

E a reciprocidade me torna imensurável. Já que a mim foi concedida a grave e tênue linha da resposta. Não para sim ou para não. Afinal, não havia pergunta, mas cumplicidade. É a cumplicidade que, de alguma forma, une. E foi sempre solene a simplicidade de qualquer calar.

E foi porque muitas coisas foram conversadas e outras tantas caladas ou porque nos encontramos despretensiosamente que me dou o direito de não fazer mais uma vez que minhas palavras emudeçam. Já que escrevo não para ser lida ou guardada (jamais para não ser esquecida), mas para expulsar. Expulsar de mim os demônios todos que perseguem a minha falta de jeito de ser.

Por isso lhe falar é tão urgente e, ao mesmo tempo, tão obsoleto. Já que escrevo da ânsia que me toma o momento e, de tão súbito passa, que já não é motivo para palavra alguma.

Se fosse diferente, não seria eu. Se fosse constante, não seria a vida.

3 Respostas

  1. Então, li dois textos dessa densidade na mesma noite. Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaca.
    Digo que calar-se por olhares às vezes nos interessa. Já que se falarmos podemos perder os olhares. Então ficamos sempre aguardando o olhar que irá nos encorajar a fazer o que nos consterna dioturnamente. Seremos nós seres de segredos? Tenho medo de assumir o que eu guardo, mas prefiro manter guardado para me sentir salvo. ]

    Nossas idéias nos deixam cada dia mais incógnitos e por isso nos rendemos ao que está mais perto. À necessidade de nunca estarmos sozinhos e perdidos nos faz assumir o risco de nunca procurarmos o que nos importa realmente.

    Sejamos francos, pois o medo nos corroe e somos todos fuzileiros que lutam por nossas vidas perdidas em nós mesmos.

    Bjo.

  2. Eu gosto tanto do silêncio… Apesar de encontrá-lo raro. Porque os silêncios de hoje em dia fazem muito barulho. O teu, por exemplo, é melodioso. Sempre impecável.
    =*

  3. Babe, já dizia Baudelaire…
    Deve-se estar sempre embriagado.
    De poesia ou de virtude.
    À tua escolha.
    Mas embriaga-te sem cessar.

    Estou me tornando novamente poesia. E será que já fui assim? Não sei, só sei da vontade de escrever… Bjo bjo bjo, Ju.

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