Do futuro que predigo
“Teu amor pelas coisas sonhadas era o teu desprezo pelas coisas vividas”.
Livro do Desassossego
Fernando Pessoa
Ao rumor que fastidiosamente me grita
que terei um amor maduro
Um amor de velas acesas no infinito de um dia
Um amor de tremores mansos
E extenuado cantar de um só,
É somente a ele que digo (ou calo)
meu cansaço vocabular.
Por esse rumor malvado, conhecido e arraigado
É que me faço perfeita forma de espera em paz.
E canto uns versos sorrindo, outros chorando
(todos, sem exceção, mentindo)
Uns contidos, outros vorazes
Uns com malícia, outros sagazes
Todos em perfeita desarmonia sinfônica.
São todas essas junções das mesmas palavras
em por vezes diferentes ordens de sonhar
que me mantêm no lugar da ânsia contida,
Do habitual sofrer por ócio,
Do chorar por hábito,
Do reter por intransigência,
Do esperar por promessas mudas de alguém que virá.
Meu futuro amante será de porto e de paz
Pois não será o barco,
Será o cais.
E seguirá o ritmo lento e contínuo do mar
Acordará pontualmente na hora em que os barcos saírem para pescar
Dormirá tão somente quando nenhum peixe for visto a nadar
E viverá sobre as conchas, mas nunca as ouvirá cantar.
Seriedade e equilíbrio o meu amor será
Num estar traçado para o bem-servir e adaptar
Seus traços e razões abster-se-ão de qualquer erro de cálculo
E haverá nele a conjugação factual da constância
Existirá ele em mim de tal forma conciliadora e reta
Que quando eu cerrar os olhos em fruição branca
Nem lembrarei dos momentos em que comprimi os lábios em ebulição ferrenha.
De todas as ilusões que carreguei
E que me traziam um amor de trovas e melodias
Alguém transcrito em véus de puras liras
Aquele que viajaria comigo as estrelas
E mergulharia comigo as entranhas do incontido
Aquele que por mim buscara e acalentara utopias de completude
E ao me encontrar vivesse em sorrisos de entendimento e em arte de contemplação
Nada disso terá o amante fadado
Nada terá pensado ou previsto
Onde estiver hoje, comigo não sonha
Não faz versos, não é poesia
Não canta nas tardes por pura canção
Enquanto sou mágoa ou transpiro euforia
Labuta por não saber o que poderia.
Será meu amado talvez por castigo
Pela face espelhada de minha extensa ironia.
Mas será, mais que tudo, filho dileto de minh’alma ferida
Será o único a me oferecer abrigo
quando das promessas ouvidas já não restar alguma.
Será ele o coeficiente roubado de minha inconstância e disritmia
Resultado sem volta do meu querer enganado, desgastado, dividido.
A morte real de minha inexistente poesia.
Juu. Eu ja disse que vc escreve mto bem? =)
Seu texto esta ótimoo ..
E obrigado por ter passado no meu blog amore..
Tmb adoro vc!!
Beijos!!
Adorei seu texto… principalmente por que meu desejo é viver uma infindável epifania, tão doce, como o cheiro de protetor solar naquele dia quente, quando a brisa bate, o pensamento vai longe, e as cores… todas tão únicas…
Ah… essas epifanias…
Nussa…
Q bom q quem não deveria entender, não entenderá…
Ainda q pra mim seja bem direto…
Esse dizer sem parecer ter dito é ótimo.. e vc é uma safada! hauhauha.. se me permite neh…
Sempre maravilhosa, juju! Um dia eu escreverei q nem vc ;**
Vou dizer que todos esses sentimentos que fluem da gente são somente coisas. Belas ou feias. Coisas que nos deixam perdidos e desconcentrados dos nossos prazeres, desmerece o nosso sossego. Sejamos melhores do que somos. Nem que para isso tenhamos que experimentar o máximo da tensão e do medo. Sejamos mais do que sempre fomos.