Bizarre |tri|angle of love

Março 11, 2007 - 3 Responses

 ”Só importa o que se entrega logo, o óbvio. O complexo deve ser descartado”.
Ferreira Gullar

O Baile de Máscaras começou.

Sem metáforas quaisquer, lancei mão dos vários tons cinzas que me refletem e roubei uma cor do meu instinto de alma. Uma flor estilizou-se na lapela inexistente. Um véu suave forjou-se máscara. Os olhos estão para a tentativa discreta de revelar o que de mais o coração reflete. O coração está para o deleite impossível da verdade lacônica. A personagem a que me destino está para a representação dionísica.

Meus instintos palpitam.

Audíveis as vozes que me chegam mesmo em silêncio. Audíveis os olhares, os gestos, as palavras não ditas. Ainda que a música ensurdeça. É na surdez dos sentidos que meus receptores exultam.

Os segredos deslizam.

Nada a que o disfarce não resulte mínimo. E as tentativas de utilizá-lo, as desculpas de efetuá-lo, os caprichos de torná-lo lúdico. Jogos cínicos com porções de coragem. Um viva à covardia velada e ao versejar manipulado! Um viva ao baile que começa desejado e termina previsto.

As máscaras a mim são inúteis passagens para caminhos escancarados.

Sem lenço e sem documento…

Fevereiro 12, 2007 - 4 Responses

Não era o olhar dela, mas um conhecimento que tinha.
Era um eu que conhecia, uma coisa interior,
Mais sutil que a declamação do olhar (…)

A coruja no sarcófago
Stevens

 

Eu senti um vento diferente. Não por todos os murmúrios que me perseguiam, nem por todas as vozes que sussurravam zumbidos de incerteza em meus ouvidos. Eu senti um sopro de esperança incomum, um sopro de ansiedade temerosa. Era mais uma vez um ar de sombria continuação da vida.

A vida, quando continua, é levada por moinhos de vento acordados do fundo de uma vontade que transborda.

Minha alma transbordou.

Não são os fatos em si. Não é o acontecimento controverso, a ironia do desenrolar do dia. Não é o noticiário aterrorizante ou o cansaço do trabalho que lhe tomou todas as forças. São os sentimentos que me doem.

A turbulência do vôo não efetuado que perturba o sono. A onisciência do toque que desenrolaria a ação. O beijo não acontecido que aguça os sentidos. O destino que seria e já não será.

Faltam-me conectivos porque falta conexão aos fatos.

Minha coesão está fadada à autofagia inóspita.

Cinema de pipoca e pipoqueiro

Fevereiro 7, 2007 - One Response

Sobre o Rio/Mar I

“Apesar de todo o pensamento, ainda éramos matéria”.
Ana Paula Braga

Todos os detalhes são poucos para detalhar aquilo que, um dia cantou Chico Buarque, “arromba a retina”.

Porque, do Rio de Janeiro, eu tenho a dizer que arromba a retina, arromba as narinas, arromba o jeito de ser e de estar. Abala um pouco do mundo de uma “garota do interior”, que é repleta de sonhos de fel, de contos de mel, de ilusões de amor, de amores de cinema. Amores do e no cinema.

De um cinema de pipoca e pipoqueiro.

Para mim, de certo modo, toda a construção lúdica desse tempo estranho | empolgante | intenso de viagem foi uma sessão, às seis da tarde, num cinema da Cinelândia, de letreiro antigo, com pipoqueiro em frente. Pipoqueiro com carrinho de pipoca, metade doce, metade salgada. Pipoqueiro com sorriso de vida, tristeza de trabalho, feito de pano, e passo, de rua, e cansaço.

Pessoa de olhos inquietos e impressionados, eu cedi aos encantos infantis de ser atada a recantos. Começar traz o insustentável terror de terminar, mas eu queria escolher o medo. Entrar no cinema escuro, sentar-me nas poltronas confortáveis, olhar a grande tela, fonte de luz que é refletor. Ver a vida pelo olhar de outro. E implorar para que essa opinião fosse a única que cadenciasse a vida.

Ao menos, por aquele momento.

Tinha que ser.
E foi.

Leaving on a jet plane

Janeiro 25, 2007 - One Response

Parece que, de repente, eu acordei embaixo d’água.

Essa é a sensação de querer viver. A sensação de tentar respirar [não por simples instinto] por vontade calculada de não ceder às forças contrárias à vida.

Não se sabe o porquê [precisamos mesmo de respostas, e metas, e objetivos, e razões], mas, de repente, o mundo não parece um lugar pronto em que fomos colocados.

Parece um lugar a se construir.

Agora, e não sei por quanto tempo esta sensação irá durar, a vontade é de se ter vontade. E ela é alimentada por todas as outras volições que formam a magicamente estruturada aura que me leva.

Estou saindo agora. Vou viajar.

Viajar parece algo bem construtivo.

Por enquanto, o mundo que eu vou construir fica pra lá.

Um parênteses

Janeiro 21, 2007 - 3 Responses

Ontem, quando a noite tomou seu lugar de musa, e eu olhei para aqueles olhos (tão fundos!), meu corpo expirou. Foi difícil dizer-me não sua ao ouvir seu torpor sussurrar.

E porque sentir tornou-se tão óbvio, ou porque deixamos algumas máscaras para trás, minha ironia crônica desfez-se sorrindo e minha mão não retraiu o impulso do toque. Meu olhar não retraiu o impulso de olhar.

Filha insólita, novamente, do desejo. Filha dileta, novamente, do saber em segredo.

Tudo, novamente, na iniqüidade do silêncio sem culpa.

Mas isso tudo eu já predisse.
Queria agora dizer.

I only write sins

Janeiro 12, 2007 - 4 Responses

Ontem resolvi fechar meu calendário de cabeceira e um sentimento estranho nasceu-me no fundo do estômago por aquilo que viria a seguir.

Não havia um novo calendário.

Um ano inteiro passara e seus 365 dias não me trouxeram sequer um novo calendário. Porém, que outras coisas preocuparam os meus dias! Eu, que vi tantos calendários sendo produzidos e vi tantos dias distingüindo-se da igualdade com que haviam sido distribuídos naquelas páginas espiraladas, fiquei surpresa por não haver um ano já marcado esperando-me ao lado de minha cama.

[Eu, que sempre adoro estabelecer relações fantásticas, analogias simpáticas e compor melodias dramáticas, senti-me alimentada.]

Um risonho sinal. 2007 seria diferente. Nada marcado. Nada supostamente esperando o ritmo natural para acompanhar-lhe o passo. Nenhuma quinta-feira depois de uma quarta, depois de uma terça, depois de uma segunda, depois de minha vida.

2007 seria diferente.

Hoje foi uma sexta-feira de chuva para Sessão da Tarde e pipoca-doce.

But teen hearts were beating faster.

Poligrafia Solitária

Janeiro 8, 2007 - 4 Responses

Há tempos sinto vontade de escrever discretamente. Um discreto normal, que não me pedisse porquês ou duplas interpretações. Um escrever de palavras rasas. E frases curtas. Frases-objeto.

Porque tudo tem me aparecido assim, uma frase sucinta. A vida a mim tem acontecido de forma enfática, breve e concisa. O que é, é para ontem; o que está, esteve implorando.

Minha bipolaridade hoje procurou desesperadamente seu norte. E minhas palavras, sempre em hipérbatos, quiseram a calmaria da ordem direta da oração. Eu quis ser simples, eu quis ser concreta, dar respostas abertas e não mais perguntar.

Eu quis ter um amor simples. E simplesmente.

Já que tudo tem acontecido um desenrolar.

Eu acordei com vontades que sempre me foram tão distantes. Quis sorrir um riso de graça e chorar um choro de corte no pé. Um choro de dor de dente. Um choro que me forcei a lembrar como é.

O começo do choro, entretanto, foi interrompido bruscamente Eu já não sei, e me torno um nascer de tantas vontades. A vontade discreta e direta de sobreviver o amor. A vontade impreterível de abocanhar a vida.

Como convencer-me de que não é unicamente uma tentativa de confessar a paixão?

Já que a paixão era o imediatismo que me faltava.

Agora, é o imediatismo que me impele.

 

Sejam bem-vindos ao meu blog.
Um espaço dedicado às minhas perpétuas efemeridades.

 

Fique à vontade.
And Read Naked.