Desenchanted Lullaby

junho 4, 2008 - 6 Respostas

“vai
meu amigo
desta vez
eu não vou contigo”

Solda

Hoje acordei com um aperto e não sabia o motivo.
Sonhei com pisos que caiam e escadas de pano.
Havia mocinhos, e os bandidos fugiram.
Seria abismo se não fosse urbano.

Nem é por eu ter uma subjetividade latente
Que eu importuno os outros com versos
É por precisar urgentemente
Que entendam que o meu amor é feito sempre de restos.

xxx

Olha que a subjetividade te engole.
Ainda mais vinda de mim, tão afoita, tão deliberadamente gulosa.
Cuida que meu amor é um fosso.
Chega muito perto e eu viro vertigem nebulosa.

Não importa mais se o teu caminho passa a milhas do meu.
Já não ligo para as meticulosidades da vida.
Tímida eu fui quando tinha medo do engano.
Hoje só tenho medo de que não termine o dia.

É desalento saber que vais embora.
Localizações geográficas são por vezes fortes guias.
Mexo-me irrequieta na ousadia de meu apego.
Fujo na languidez incômoda de que um dia desses estás de volta.

Eu sempre espero.

A volta dos que não foram

março 15, 2008 - 6 Respostas

+ The Persistence of Memory +

Porque os meus poucos anos não me pesavam e eu era somente o roçar leve da esperança em meus cabelos
Porque nossos planos eram tantos, nossa vontade imensa e nossa certeza indissoluta
E porque, não obstante, você era meu e eu era sua.

Havia um algo já pronto roubado das quimeras que alguém sonhara por nós
Havia no destino previsto um traçado tão certo, tão puro, tão belo
E havia, contudo, a espreitar-nos maldoso, um inimigo discreto.

O Tempo.

Porque você não era senão a cândida fonte da diligência subalterna e eu a mais feliz das rainhas efêmeras
Porque nossas horas secretas eram apego, doçura, afago
E porque, sobretudo, nossas mãos atônitas, unidas, eram amparo.

Seria ofensa aos insanos delírios lânguidos dos deuses desamparados na distância de seus pedestais
Seria volúpia inenarrável aos anjos ávidos por deixarem-se em terra a provar o gosto mais lancinante da paixão
Seria, porém, se não fosse somente a sombra indistinta de um forasteiro em minh’alma.

O Amor.

Porque era o límpido sorriso da felicidade brincando em meu rosto menino e eu era rendida
Porque foi um assomo de fantasia… simples, contido, profundo
Porque foi, contudo, somente uma febre lúgubre que vitimou o mais íntimo do meu hermético mundo.

Mas o que se fez um dia rascunho pretenso de amor, faz-se hoje promessa inglória de eterna e reclusa dor
O que um dia se fez indomável utopia de eternidade e alegria
Hoje se mostra indizível, faz-se escura, e agarra minha última sobrevivente insana.

A Memória.

[Relembrar, já que insistem em me fazer lembrar]

Bem-vindo ao caos

março 3, 2008 - 3 Respostas

“Ou te enforco em teu terço de mil voltas
Ou caio na risada, ou te exorcizo
Com um gigantesco crucifixo branco
Onde, transverberando luz do flanco
Resplende o corpo nu da minha amada!”

Antiode à tristeza
Vinicius de Moraes

 

 

Se não houvesse um motivo e se as situações não se desenrolassem com a desenvoltura e a rapidez de um apego infantil, eu não diria que passou.

E que agora é novo o que já era visão. E que agora é fato o que já era certo. Porque é sempre fato o meu desesperar.

Digo uma coisa, se eu pudesse lhe esperar, você acha que eu não esperaria? A questão é que esses meus batimentos são loucos, e essa é a minha aceleração. Não adianta eu correr sozinha de mim mesma. Minha sombra vem atrás. Além do mais, eu normalmente corro em círculos.

Eu diria a você “tudo bem, já vai passar”. Acontece é que não vai. E você pode esperar sentado, em pé, dar as costas, enfim, fingir. A escolha é sua. Eu talvez não vá mudar.

Meu condicional é sempre mais estranho do que o previsível.

As afirmações, então, são o céu. Tão sólido aos olhos… E feito de ar.

De definitivo, eu só sei que quero rir. Já que chorar não vem sendo exatamente providencial.

Veja bem, eu tenho chorado bastante.

Em tempos estranhos, parabéns

janeiro 8, 2008 - 2 Respostas

“Entre as coisas mais semelhantes é onde é mais bela a ilusão:
porque é sobre o abismo pequeno que se torna difícil lançar uma ponte”.

Assim Falou Zaratustra
Friedrich Nietzsche

Bastaria talvez que meus olhos olhassem os seus e deixassem que a fabulosa capacidade de entendimento do vínculo que há entre eles fizesse o papel de palavras ou gestos quaisquer. Assim eu espero que continue. E quando nos faltarem palavras, ou o momento não permitir que elas sejam ditas, nossos olhares se encontrem e digam a que vieram. Há uma graça especial na cumplicidade que nos une.

Ainda quando não pudermos contar com a presença – animal enganador que nos foge assim que pode – que possamos abusar dessa outra ligação impossível de descrever. Essa que eu sinto, mas não explico racionalmente. E não poderia, visto que não é tangível ou mensurável. Existe.

Talvez um bálsamo infinito a uma alma aflita por elos especiais, coincidências inexplicáveis, pílulas de amores que saciem a ânsia do onírico e do poético. Porque do nosso encontro eu só posso prever tradução em um soneto perfeito, com métrica decassílaba, em que o verso lido intui o próximo numa dança perfeita de palavras, sentidos e sons que se esperam, já que se conhecem desde o sempre lírico.

Que eu espero encontros para alimentar minha literatura não-escrita e meus caminhos não-pisados, não é segredo. Que você é um deles, porém, nem todos sabem. Antes não saibam. Dotados de uma inteligência – ou mais, percepção – limitada que são, o que se poderia esperar? Melhor cultivar os segredos. Enquanto dividirmos segredos, nada nos separa. Enquanto cultivarmos as verdades indizíveis, elas manterão nossos laços.

Alguma vez você já pensou que nos mantemos vivos pelos segredos que compartilhamos com nós mesmos? São os sonhos mais intransferíveis, urgentes ou impossíveis, que nos movem. São esses que não contamos a ninguém.

Hoje penso que uma amizade não é mais a capacidade de guardar segredos que o dom de aceitar aqueles que não são contados como se já os soubesse e concordar.

Amar é um eterno concordar na discórdia.

Novas Quinquilharias Novas

novembro 25, 2007 - Uma resposta

“Perguntava-se, porém, por que ainda o medo.
Por que ainda o pesadelo, por que ainda o desfigurar do rosto em lágrimas.
Queria consigo, ainda, a resposta desesperada, tal malabarista ávido por ao chão chegar,
Por que a confusa saudade, estranha presença martirizante de um não saber o que falta.

Sofreu por ter um coração apodrecido por maldades que não eram suas
Por ter uma alma sedenta de respostas irrespondíveis, de perguntas inúteis,
E sofreu pelo tempo em que não lhe foi dada a única e aceitável premissa que lhe caberia:
Acontece que ela não era perfeita.”

A chave
J.B.

Quinquilharia: do francês quincaillerie
s.f.,
brinquedos de crianças;
bagatelas;
miudezas.

Epifania II

setembro 30, 2007 - 4 Respostas

Do futuro que predigo

 

 “Teu amor pelas coisas sonhadas era o teu desprezo pelas coisas vividas”.

Livro do Desassossego
Fernando Pessoa

Ao rumor que fastidiosamente me grita
que terei um amor maduro
Um amor de velas acesas no infinito de um dia
Um amor de tremores mansos
E extenuado cantar de um só,
É somente a ele que digo (ou calo)
meu cansaço vocabular.

Por esse rumor malvado, conhecido e arraigado
É que me faço perfeita forma de espera em paz.
E canto uns versos sorrindo, outros chorando
(todos, sem exceção, mentindo)
Uns contidos, outros vorazes
Uns com malícia, outros sagazes
Todos em perfeita desarmonia sinfônica.

São todas essas junções das mesmas palavras
em por vezes diferentes ordens de sonhar
que me mantêm no lugar da ânsia contida,
Do habitual sofrer por ócio,
Do chorar por hábito,
Do reter por intransigência,
Do esperar por promessas mudas de alguém que virá.

Meu futuro amante será de porto e de paz
Pois não será o barco,
Será o cais.
E seguirá o ritmo lento e contínuo do mar
Acordará pontualmente na hora em que os barcos saírem para pescar
Dormirá tão somente quando nenhum peixe for visto a nadar
E viverá sobre as conchas, mas nunca as ouvirá cantar.

Seriedade e equilíbrio o meu amor será
Num estar traçado para o bem-servir e adaptar
Seus traços e razões abster-se-ão de qualquer erro de cálculo
E haverá nele a conjugação factual da constância
Existirá ele em mim de tal forma conciliadora e reta
Que quando eu cerrar os olhos em fruição branca
Nem lembrarei dos momentos em que comprimi os lábios em ebulição ferrenha.

De todas as ilusões que carreguei
E que me traziam um amor de trovas e melodias
Alguém transcrito em véus de puras liras
Aquele que viajaria comigo as estrelas
E mergulharia comigo as entranhas do incontido
Aquele que por mim buscara e acalentara utopias de completude
E ao me encontrar vivesse em sorrisos de entendimento e em arte de contemplação

Nada disso terá o amante fadado
Nada terá pensado ou previsto
Onde estiver hoje, comigo não sonha
Não faz versos, não é poesia
Não canta nas tardes por pura canção
Enquanto sou mágoa ou transpiro euforia
Labuta por não saber o que poderia.

Será meu amado talvez por castigo
Pela face espelhada de minha extensa ironia.
Mas será, mais que tudo, filho dileto de minh’alma ferida
Será o único a me oferecer abrigo
quando das promessas ouvidas já não restar alguma.
Será ele o coeficiente roubado de minha inconstância e disritmia
Resultado sem volta do meu querer enganado, desgastado, dividido.

A morte real de minha inexistente poesia.

Epifania I

agosto 23, 2007 - Uma resposta

Exercício da oficina de Jornalismo Literário, por o Doutor Silvio Ricardo Demétrio, no dia 22 de agosto de 2007.
Escrita livre a partir de três músicas diferentes colocadas por ele.
Sem planejamento, punição ou cerceamento.

Ainda preciso me libertar. Mas acredito que alguma coisa que parecia ainda não estabelecida em mim pareceu fazer sentido.

Espero que eu escolha o caminho epifânico correto. Se é que esse há.

[Sem edição]

*****

I
Porque todos os sons a que me reporto são luzes que tornam o caminho obscuro, e aqueles que pensam a mim se reportar, caem neutros naquilo a que chamo desconsciente.

Não havia, portanto, quem se achegasse devagar. As divagações tão sinceras, e exatas, e concebidas fielmente, não me salvariam do resvalar do sempre. Que corre a distâncias imensuráveis.

E por deslizar assim tão facilmente é que me solto rio. E me faço vento. E movo minhas próprias planícies de areia. Porque formo a ciência que me rodeia e me regenera.

E que por vezes subverte partes minhas ao infinito que termina ali.

Antes fosse um outro qualquer que me desvendasse. Mas sou eu. E o desfruto de forma tão conseqüente que seria até injusto dizer que o tempo passou depressa.

O tempo passou sem que eu dissesse sim, mas parou quando eu disse que queria.

II
Outras vozes não poderiam chegar.

Eu não as ouço por mais que me cheguem ao ouvido e me escapem à boca.

Eles transpiram meus poros porque sou deles.

E assim não seria se não os amasse.

E os completasse com a incompletude dos paradoxos todos de que sou trançada.

Não haveria outra forma de ser.

Porque a verdade é uma translúcida bacia de águas turvo-cristalinas.

Tantas vezes eu ouvi que rogavam

ou pediam

ou perdiam

e destoavam

outras morri.

III
Foi quando eu não tentei mais fechar os olhos

e conseguia ouvir tudo que havia.

Porque o toque tornou-se mais intenso

e o paladar rompia-se em mil sabores distintos.

Eu sentia com o mundo

Se eu não ouvisse Carlos recitando-me poesias

todas faladas para mim, já que escritas para o mundo

e do mundo

Eu talvez ouvisse Pessoa recomendando-me que o futuro tão sonhado tornara-se pó de uns escritos reclusos que ninguém nunca leria

e por isso não seriam

Já que eu precisava do exercício da vida

O exercício que sobrepusesse minhas palavras à minha vontade de ser

de ter, de estar e saber

ao meu jeito de sobreviver

E aquelas coisas inválidas

não por validade, mas por validez

não serviriam a mim pois não eram por mim ditas

muito menos para mim

Somente quando percebi que havia o ser para mim eu não seria menos

Eu seria paz

We can (not) pretend it all the time

julho 13, 2007 - 3 Respostas

Porque foi um tempo de tanto olhar e silêncio que no momento de falar meu suposto saber metafórico calou-se. E porque tanto foi dito sem que a força do verbo fosse feita marca que nada mais puro de meu lirismo senão o calar.

A detentora de tantos vocábulos e de tantas formas de explicar, a menina com um dicionário e com um livro a publicar, aquela que sempre tem uma resposta a pulsar. Justamente eu que abuso das rimas, que escrevo demais, que custo a parar de falar.

Porque se emudeço não é que me faltem palavras. É que me sobra o olhar.

(Por que tanto olhar?)

E a reciprocidade me torna imensurável. Já que a mim foi concedida a grave e tênue linha da resposta. Não para sim ou para não. Afinal, não havia pergunta, mas cumplicidade. É a cumplicidade que, de alguma forma, une. E foi sempre solene a simplicidade de qualquer calar.

E foi porque muitas coisas foram conversadas e outras tantas caladas ou porque nos encontramos despretensiosamente que me dou o direito de não fazer mais uma vez que minhas palavras emudeçam. Já que escrevo não para ser lida ou guardada (jamais para não ser esquecida), mas para expulsar. Expulsar de mim os demônios todos que perseguem a minha falta de jeito de ser.

Por isso lhe falar é tão urgente e, ao mesmo tempo, tão obsoleto. Já que escrevo da ânsia que me toma o momento e, de tão súbito passa, que já não é motivo para palavra alguma.

Se fosse diferente, não seria eu. Se fosse constante, não seria a vida.

*Uma vontade de presente*

junho 12, 2007 - 5 Respostas

 “Quando se fala uma língua,
sabe-se muita coisa que jamais se aprendeu”.

Chomsky
in A angústia da influência, Harold Bloom

 

Mentir, às vezes, é um exercício angustiante. Posso dizer que há muito tempo eu não me sentia exasperada em meu habitual dissimular. E não sentia vontades irreprimíveis de ultrajar meus amores e macular seus amares perfeitos.

E ferir-lhes a fronte, rasgando-lhes a face. A carne. O importante era lancinar-lhes os músculos, corromper-lhes as vísceras, furar-lhes os olhos.

Os olhos. Os ouvidos. As mãos. O olfato. Queria que lhes faltassem os sentidos para que não pudessem saber-me, notar-me, sentir-me.

Eu e minhas verdades somos egoístas. E pertencemos umas às outras.

Enquanto eu gargalhava em silêncio a consciência de ser profana, entretanto, quem foi destituída dos sentidos fui eu.

Aquela que tanto procrastinou o desejo de fazer-se serva e tanto imaculou a vontade de ser só. Aquela que mentiu que calava, falou que mentia e calava que sua única verdade era fingir a mentira para realmente encarar aquilo que lhe afligia.

Tinha medo de ser só.

E quando novamente o ar irrompeu as perturbações insensatas da estupidez, o medo extirpiu-se de todo. Era a calma das águas silentes e a certeza das crianças quanto à duração da eternidade. Eu não sabia não mentir, mas o não saber foi tão profícuo que qualquer certeza (ou mentira) tornara-se obsoleta.

Eu notei que era fluente em uma língua da qual eu nem sabia a existência. O sucumbir às vontades eternas.

” (…) eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro”.

Clarice Lispector

*Miojo serve*

Dia de Desgaste I

março 30, 2007 - 6 Respostas

“Nós afirmamos a forma porque não aprendemos
a sutileza de um movimento absoluto”.

Friedrich Nietzsche

Pensar a arte de maneira extensiva, conclusiva e insipiente. A arte inevitável. Porque o fluido de que se forma, e que se esvai, e que se tomba, é (com qualquer advérbio que me congratule) irremediável. Não é possível que seja sentido e não se conte (não desponte) ou que haja e não seja.

A vida estende-se.

E derrama. Porque o acúmulo de forças que se surpreendem e, surpresas de si, se chocam, não é mensurável. Muito menos é contável o recipiente de que se valem.

Valer-se da alma do artista é rejuvenescer em um estranho vale (com nenhuma desculpa pelo usurpar das mesmas letras).

A estranheza causa movimento. E o movimento o ponto estático que constrói. A construção da forma que arrebata e estupefaz. Tornar a realidade estúpida para desgastá-la até o refazer.

E o refazer é a arte.